Prudente José de Morais Barros

O Homem Político e o Homem Maçom



INTRODUÇÃO

      Considero honra insigne integrar os quadros da Academia Maçônica Ribeirãopretana de Letras. Elevo meu pensamento à memória do saudoso e querido Irmão Sílvio Geraldo Martins que indicou meu nome para participar de tão seleto grupo.

      Faço uso deste texto para justificar, em rápidas considerações, a escolha de PRUDENTE DE MORAES BARROS, brasileiro notável, proeminente homem público e maçom exemplar, para Patrono da Cadeira 28 deste Sodalício.
      A vida política de Prudente de Moraes, Primeiro Presidente Civil do País, está gravada na história de nossa pátria, que registra com profundidade os feitos, os percalços, as conquistas, os dissabores desse homem público exemplar, que também palmilhou os caminhos da Sublime Instituição.

VIDA MAÇÔNICA DE PRUDENTE DE MORAES

      As informações disponíveis a respeito da vida maçônica de Prudente de Moraes são escassas.

      JOSÉ CASTELLANI (1994), em sua obra: “História do Grande Oriente de São Paulo”, ao tratar da fundação da Augusta e Respeitável Loja Simbólica “Piracicaba”, menciona Prudente de Moraes como um de seus fundadores. Em nota explicativa tece considerações que permitem estabelecer a época e a loja em que, provavelmente, se deu a iniciação de Prudente de Moraes na Arte Real.

      Eis o teor da mencionada nota: “Prudente de Moraes, ao ingressar na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1859, travou amizade com colegas que teriam grande importância na sua vida: Campos Sales, Rangel Pestana e Bernardino de Campos, entre outros. Graças a isso, é provável que tenha sido iniciado maçom em 1862, ou 1863, aos 21 ou 22 anos de idade, na Loja ‘Sete de Setembro’, fundada, exatamente, por seus amigos Campos Sales e Rangel Pestana. Não existem dúvidas, porém, de que tenha sido Maçom, pois, em 1875, constou como um dos fundadores da Loja ‘Piracicaba’ e, quando Presidente da República, teve seu nome lançado como candidato ao Grão-Mestrado do Grande Oriente do Brasil”.

      JAIR DE TOLEDO VEIGA (1975), co-autor do livro: “Folhas de Acácia”, editado por ocasião das comemorações do Centenário da ARLS “Piracicaba”, teceu considerações a respeito da fundação da referida Oficina, mencionando os integrantes da Primeira Diretoria. O nome de Prudente de Moraes constou como Orador da Centenária Loja “Piracicaba”.

      Foram estas as poucas informações documentadas que foi possível amealhar a respeito da participação de Prudente de Moraes na História da Maçonaria Piracicabana.

      A escassez de documentos também foi mencionada pelo saudoso Irmão LEANDRO GUERRINI, um dos maçons eméritos da Loja “Piracicaba”. O Irmão Guerrini afirmou: “Os livros de atas e documentos preciosos desapareceram, em virtude dos contratempos por que passou a Loja ‘Piracicaba’, mormente quando silenciou colunas no começo do século XX”.

      Muito embora não existam alentados documentos que possam consubstanciar uma análise mais profunda a respeito do Maçom Prudente de Moraes, as múltiplas atividades de sua vida profana permitem identificar posturas que são próprias do HOMEM MAÇOM e que foram por ele assumidas ao longo de sua existência.

      Aos dezoito anos, Prudente era magro, rosto ossudo, o semblante sério combinando com o fraque preto que sempre vestia; cabelo crescido, nariz adunco, ar profético, autoritário, só os olhos esverdeados amenizavam sua imagem severa. Quanto a seu modo de vida, ele mesmo descreveria: “Prudente pelo nome, prudente por princípio e por hábito”.

      Prudente de Moraes não se destacou na passagem pela Faculdade de Direito. Bom aluno, mas não excepcional. Estudante pobre, modesto e metódico, vestia-se com simplicidade. Era ele mesmo quem cuidava de sua roupa, lavando, passando e consertando-a quando preciso.

      Nas Arcadas fez amizade com alguns dos que seriam, mais tarde, notórios homens públicos, que, ao lado de muitos outros, fundariam, anos depois, o Partido Republicano e teriam papel destacado nos acontecimentos da denominada Primeira República.

VIDA POLÍTICA DE PRUDENTE DE MORAES

      Piracicaba foi a pátria política de Prudente de Moraes.

      Aos 22 anos de idade fixou residência na “Noiva da Colina”. Instalou sua banca de Advogado e deu seus primeiros passos na política. Prudente construiu sua vida crescendo com uma Piracicaba que também crescia economicamente, tendo por base a cultura do café. Prudente cresceu, politicamente, trilhando o caminho da República e da Abolição.

      Prudente de Moraes cumpriu uma carreira política brilhante. Foram 33 anos de vida pública, durante os quais ocupou diversos cargos, de Vereador a Presidente da República.

      Aos 24 anos de idade, assumiu o cargo de Vereador e de Presidente da Câmara Municipal. Por força da legislação, então vigente, tornou-se Prefeito de Piracicaba.

      Aos 26 anos, elegeu-se Deputado da Assembleia Provincial de São Paulo.

      Prudente dividia seu tempo entre o mandato de Deputado Provincial, a Vereança em Piracicaba e o exercício da advocacia.

      Aos 34 anos, Prudente de Moraes participou da Fundação da Loja “Piracicaba”.

      Filiou-se ao Partido Republicano, quando contava 35 anos de idade. No ano seguinte, foi eleito para compor a Câmara dos Deputados.

      O republicano Prudente de Moraes, liberal, democrata, defensor da federação, partidário da transição pacífica, emancipacionista e depois abolicionista, era o retrato da política cafeeira.

      Com a Proclamação da República, um triunvirato foi designado para governar São Paulo, composto por Prudente de Moraes, Rangel Pestana e Tenente Coronel Joaquim Mursa. Pouco depois, o triunvirato foi extinto e Prudente, que naquela época contava 48 anos de idade, foi nomeado Presidente do Estado, permanecendo dez meses no posto.

      No curto período de dez meses, Prudente de Moraes colocou em prática algumas de suas convicções políticas e, por que não dizer, maçônicas. Em decorrência da separação havida entre a Igreja Católica e o Estado, que fora decretada pelo novo regime, Prudente impôs a laicização do ensino público e excluiu das escolas públicas o ensino de religião. Em outubro de 1890, determinou que a quantia de 200 contos de réis, destinada, por lei imperial, à construção da catedral, fosse empregada na edificação da escola normal.

      Em 18 de outubro de 1890, recebendo homenagens, inclusive de líderes monarquistas, Prudente de Moraes deixou o Governo Paulista para participar da Assembleia Constituinte da República, na condição de Senador.

      A Assembleia Constituinte instalou-se no dia 15 de novembro de 1890, primeiro aniversário da Proclamação da República. Prudente de Moraes teve seu nome lançado por Campos Sales para concorrer à Presidência da Assembleia, elegendo-se com folgada maioria.

      A Constituição foi promulgada em 1891 e, embora estabelecesse que a eleição do Presidente e do Vice-Presidente da República deveria ser por meio de sufrágio direto, a verdade é que o primeiro presidente acabaria sendo eleito pelo Congresso. Prudente disputou o cargo de Presidente da República com o Marechal Deodoro e foi derrotado. Entretanto, seu companheiro de chapa, Marechal Floriano Peixoto, foi eleito Vice-Presidente.

      Com a renúncia de Deodoro, Floriano assumiu o poder e cumpriu o restante do mandato. Novas eleições foram marcadas. No dia 1.º de março de 1894, Prudente de Moraes, candidato único, se elegeu com facilidade e tornou-se o Primeiro Presidente da República eleito pelo voto popular, tornando-se, também, o Primeiro Presidente Civil do País.

      Prudente de Moraes assumiu a Presidência da República aos 53 anos e, como presidente, conservou seu ar compenetrado e seus hábitos simples. Levantava às 7 horas, vestia a sobrecasaca preta sobre o colete e, durante o dia, devotava-se inteiramente às suas funções. A preocupação com o serviço público absorvia-o, e se irritava quando o convidam para solenidades e espetáculos.

      Gostava de trabalhar em pé, junto à mesa alta. Almoçava, frugalmente, às 11 horas e, somente às 18 horas, reunia-se novamente com toda família, durante o jantar. Não bebia vinhos. Era reservado e pouco comunicativo, mas isso não o impedia de ser afável e atencioso.

      No seu novo cargo, Prudente herdara os principais problemas da vida nacional e que iriam caracterizar todo o seu mandato, estendendo-se até 1930, período conhecido como Primeira República.

RETORNO À TERRA QUERIDA

      Durante o ano de 1898, final de seu mandato, as preocupações políticas de Prudente de Moraes ocuparam lugar secundário. Prudente passou a dedicar-se às providências relacionadas ao seu retorno à cidade de Piracicaba.

      Prudente de Moraes escreveu aos parentes e amigos:

      “Estou a contar os dias que faltam para chegar o 15 de novembro, com a mesma ansiedade com que os escravos esperavam o seu 13 de maio...”

      Chegou, enfim, o tão esperado 15 de novembro de 1898. Prudente esmerou-se em dar à solenidade de transmissão de cargos o brilho de um espetáculo, justo ele que não gostava de solenidades.

      No dia 23 de novembro, o trem especial que o conduzia chegou à estação de Piracicaba, onde toda a população esperava para recebê-lo e aplaudi-lo. Prudente passou, então, a desfrutar da vida tranquila do lar, entre os filhos.

      A partir de 1901, atacado pela tuberculose, Prudente de Moraes passou a sentir-se muito doente e enfraquecido. A cada dia, foi sentindo-se cada vez mais velho e doente.

      À família dizia: - “Não sairei mais de perto do Gaspar”. Gaspar era o zelador do “Cemitério da Saudade” de Piracicaba...

      Prudente de Moraes faleceu no dia 3 de dezembro de 1902, na terra que adotou como sua, a sua querida Piracicaba.

      A fulgurante trajetória de vida de um estadista chegava ao fim. Ao longo de seus 61 anos de existência, é possível identificar em Prudente de Moraes a postura irrepreensível de um verdadeiro MAÇOM.

O LEGADO

      A vida proba e respeitável de homem e de maçom do Patrono que escolhi para dar nome a uma das Cadeiras desta Academia Maçônica de Letras, serve de paradigma e nos estimula a enfrentar os desafios do mundo atual, pugnando por uma Sociedade mais justa e fraterna, induzindo-nos a adotar uma postura de permanente disposição ao serviço da Pátria e da Sublime Instituição.

      Prudente de Moraes, integrante da Galeria de Patronos deste Sodalício, constitui-se em farol a guiar as ações dos obreiros de paz reunidos sob a égide da Academia Maçônica Ribeirãopretana de Letras. Que o Grande Arquiteto do Universo a todos ilumine e guarde.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
ALMANAQUE ABRIL 1990. São Paulo, Editora Abril S/A, 1990. 866 p.
CASTELLANI, J. História do Grande Oriente de São Paulo. Brasília, Grande Oriente do Brasil, 1994. 380 p.
ENCICLOPÉDIA BARSA. São Paulo, Encyclopedia Britannica Editores LTDA, 1973. (Volume 9 - 479 p.)
GASMAN, L. Documentos históricos brasileiros. Rio de Janeiro, MEC/FENAME, 1976. 302 P.
GRANDES PERSONAGENS DA NOSSA HISTÓRIA. Prudente de Moraes. São Paulo, Editora Nova Cultural LTDA, 1987. (p. 65 a 80).
GIUSTI, A. A Maçonaria no Centenário 1822 - 1922. São Paulo, A Maçonaria no Estado de São Paulo, 1922. 259 p.
MERZEL, J.; VEIGA, J.T.; MOLINARI, C. A.; BIGHETTI, C. J. & GUERRINI, L. F. de Acácia. Piracicaba, Loja Maç.'. “Piracicaba”, 1975. 81 p.
NOSSO SÉCULO 1900/1910. São Paulo, Abril Cultural, 1980. 260 p.